domingo, 14 de outubro de 2012

Ícaro Decide Voar



  No alto de seus dezenove anos uma pessoa está no auge da boa forma, goza de infinita vitalidade e tem uma vida toda pela frente, você pode pensar, mas acredite, essa sua perspectiva mudaria se me conhecesse.

    Nunca me imaginei vivendo aquela vida de família feliz que se vê nos comerciais de margarina e tampouco imaginava meu futuro preso á uma doença sem cura. Minha vida sempre foi toda errada, desde meu nascimento, quer dizer, os médicos disseram á minha mãe que não poderia ter outro filho além de Isabel. Ou seja, eu vim de surpresa, um acidente.

    Hoje cedo pedi á Tulio que raspasse meu cabelo de uma vez. Já não suportava ficar perdendo fios de cabelo por todo canto da casa, como um animal perde pelos, sem contar as manchas no couro cabeludo, onde minha pele estava irritadiça e dificilmente, como dissera o médico, cabelos tornariam a crescer ali. Eu mesmo peguei uma tesoura, e, sentado frente ao espelho comecei a cortar os tufos, que caíam solenes no chão. Sendo-lhes sincero eu nunca imaginara que teria coragem de tal ato, quer dizer, em tempos passados isso seria algo extremamente dolorido, quase que insuportável. Ficar careca? Imagina! Aparência era fundamental.

    Enquanto as mechas de cabelo negro escorregavam entre meus dedos lágrimas desciam por minhas faces pálidas. Não que fosse um ato dolorido, mas significava muito, como uma passagem de ciclo, uma mudança sem volta para um estado permanente.

   -- Tulio, por favor, termine o serviço. – Eu pedi afastando as lágrimas, tentando esboçar um sorriso no rosto.

   -- Oh, você não precisava... – Ele tentou dizer, após colocar suas coisas na poltrona de nosso quarto. Eu o calei mostrando a máquina de cortar cabelo.

   -- Não será difícil. – O encorajei.

   Ele fechou a porta e correu ao meu encontro, abraçando-me e beijando meu pescoço. Pelo espelho pude perceber seu olhar duvidoso, interrogativo.

   -- Ora Tulio, você não vai querer que eu fique com esses buracos  no couro cabeludo, vai? – Falei referindo-me ao meu péssimo corte de cabelo. – Vamos, me dê um corte de cabelo descente.

   Sorrindo ele tomou a máquina nas mãos e começou seu serviço. Em poucos minutos não restava um único fio negro para contar a história. Tulio fizera um bom trabalho, eu é que não ficava com a aparência de todo agradável sem cabelos. Ele disse que eu ficara bem, mas sabia que era somente para me fazer sentir-me melhor. Era só uma questão de tempo para que eu me acostumasse com o novo visual. Por fim suspirei aliviado, finalmente não teria mais que me preocupar com os cabelos espalhados pelo chão da casa.

    Meu peito apertava quando levantei da cadeira, uma sensação de vazio, de despedida. Encarei aquele rosto mais que perfeito á minha frente e senti como se nunca mais o veria na vida. Puxei Tulio para perto e o beijei do modo mais intenso que pude, queria aproveitar cada momento que me restava. Ele retribuiu de modo tão ou mais apaixonado, suas mãos percorrendo meu peito nu, depois o abdômen, até seu dedo indicador infiltrar-se em minha cueca.

   -- Não. – Pedi. Afastei-me dele, empurrando suas mãos para longe. Era melhor parar de uma vez, pois se aquelas carícias continuassem eu acabaria não resistindo.

   -- Você sabe que eu não tenho medo, Ícaro. – Replicou ele. – Porque tem tanto pudor, porque insiste em não se deixar levar?

   -- Eu posso te matar. – Falei de modo objetivo, indo direto ao ponto. Aquelas palavras doíam ao serem proferidas, mas era a verdade.

   Tulio baixou os olhos, impaciente esfregou o rosto com as mãos e se sentou na beira da cama. A ideia de usar preservativo não me deixava totalmente seguro. Medo, o que me impedia de seguir em frente era o medo de infectar a quem eu mais amo, aprisionando-o no mesmo futuro que eu. Esse vírus maldito, esse liquido sobrenatural prendia-me de modo tão arrebatador que não havia meios de ignorá-lo.

    Eu tinha plena consciência de que Tulio não compreendia meus motivos, mas partindo da hipótese de que eu partisse logo eu quero que ele fique bem, continue levando sua vida em frente, continue amando, e retome sua vida social que abdicou por minha causa, unicamente para cuidar de mim. Meu medo não era de partir e deixar mais um infectado e sim de infectar ele, fazendo com que perca o resto da juventude assim como eu.

   Agora foi minha vez de me aproximar. Passei a mão entre seus cabelos pretos e espessos. Fisicamente éramos muito parecidos, agora não mais como no passado, pois eu emagrecera muito, ficara por deveras mais pálido, e, bom, careca também. – Obrigado por não insistir. – Falei a ele.

   Desde então tomei consciência de algo terrivelmente avassalador. Em breve ele seria novamente feliz. Sem mim. Diferentemente do que você pode pensar, eu não me sentia mal em ter tal conhecimento, na verdade até animava-me. Um de nós dois ainda teria a chance de ser feliz.

   -- Hora do remédio. – Ouvi seu sussurro próximo ao meu ouvido.

   Sentado na cama esperei a chegada de meu coquetel, aqueles comprimidos que me mantinham vivos.

   Engoli as balinhas multicoloridas e fechei os olhos, certamente dormiria até o dia seguinte.

    No meio da noite acordei assustado, sentindo o sangue correr rápido por minhas veias, o coração palpitando, mas não era palpitação do tipo que eu sentia quando estava com Tulio, era pesada e atormentadora, dessas que fazem seu coração pesar tanto quando uma bola de boliche. Tremores percorriam meu corpo, suor escorrendo pelo rosto. Deveria ser alguma reação aos remédios, os costumeiros efeitos colaterais, mas agora eles pareciam diferentes, extremamente mais fortes do que de costume.

   A luz do quarto ascendeu-se e vi a figura de Tulio preocupado a me encarar, não queria incomodá-lo no meio da noite, mas era desnecessário pedir que não se preocupasse. Eu sabia que enquanto eu existisse ele estaria lá, ao meu lado, me amando do mesmo jeito e escrevendo os mesmos romances ruins que eu fazia questão de ler orgulhoso.

   -- Shii... – Com seu toque suave me puxou para perto, fazendo-me deitar em seu colo. Deixei meu corpo se levar, mal conseguia sustentar-me sentado. Ficamos por um bom tempo assim, unidos como um só. Tulio sofria tanto com minha dor que parecia senti-la em sua própria pele. – Aguente firme, ouviu? Vamos ao hospital e...

   -- Não... Eu já vivi coisas demais Tulio, mais do que eu posso suportar.

   -- Pare com isso, é apenas mais uma crise, você vai ver. Amanhã tudo estará bem novamente, como já aconteceram várias vezes. – Tulio falava com tanta convicção que foi impossível não me comover. Sua voz era carregada de verdade, de certezas, porém suas palavras não passavam de mera ilusão.

   -- Te amo tanto garoto. – Queria pedir que ele largasse minha mão, me deixasse ali, mas ele não o faria, suas palavras seguintes só vieram a confirmar.

   -- Eu também. – Ele fez, sorrindo nervoso, olhos encharcados. Inclinou-se para mim e acariciou minha orelha com seu nariz. Apesar de toda a dor que percorria meu corpo, os tremores e calafrios, eu pude sentir uma lágrima sua cair em meu rosto. – Juntos até o final.

   -- Juntos até aqui. – Lembrei-lhe.

   -- Não, esse não é o final, ah, vamos acredite em mim! Temos tanto pela frente ainda.

   Esse ‘’ Temos tanto pela frente ainda’’ confesso que me assustava. Eu já vira mais do que posso, estava esgotado. Fora desse meu mundinho eu sei que há muita vida, mas sinceramente eu já não sei se tenho forças para sair porta afora e busca-la. 

   Senti algo subir até minha boca e mandei que Tulio se afastasse, mas ele não o fez. Tive de reunir toda minha força para levantar de seu colo antes que vomitasse meu sangue infectado ali mesmo. Tudo á minha volta começou a girar, mas mesmo assim eu pude ver que nos lençóis havia manchas vermelhas, eu acabara arranhando as feridas que irritavam minha pele...

   Tentei questioná-lo se havia entrado em contato com o sague, mas não consegui proferir palavra. O que pude distinguir das imagens turbulenciadas foi Tulio falando ao telefone e então... Não, não ouve então, só o nada.

                                                                 ~~~~~~~~~~~~~~

   Não acredito que ainda estou aqui. Pensei com meus botões quando acordei no leito do hospital, minha segunda casa. É morte, parece que não foi dessa vez. A gente sempre com essa mania estúpida de adiar nosso encontro tão inevitável.

   Enquanto estive desacordado tive sonhos, visões ou delírios com minha família. De hora em hora via o rosto de um dos quatro á me encarar, sorriam, querendo me ver bem com uma doçura no olhar e arrependimento no semblante. Ah, eu e meus devaneios...

   O Doutor Germano me examinava, sob o olhar atento de Tulio.

   -- Gostei do novo corte de cabelo. – Disse o doutor sorrindo. Desde que tudo isso começou era com ele que eu me tratava, aliás, fora ele mesmo quem me dera a notícia.

   Antes de tudo isso começar eu pensei que ser gay era a maior provação que eu teria de passar em toda a minha vida. Muito me enganei. Constatei isso no consultório médico, ouvindo a sentença que o Doutor lia do amontoado de exames. Lembro-me bem daquele dia, e, mesmo que quisesse esquecer não conseguiria. Você pode achar estranho, mas ao ouvir as palavras do médico eu ri. Preferi rir á bancar o garoto revoltado. Rir das próprias desgraças, afinal o que mais eu poderia fazer?

   O senhor vestido de branco olhou para mim curioso, deixando um pouco de lado o ar fúnebre que tomara.

  “Eu entendi.” Disse á ele antes que decidisse me mandar para a ala psiquiátrica. Ao admitir isso me dei conta da real situação. E chorei. Chorei e ri. Um misto de sentimentos numa pessoa confusa. “É sério doutor, eu entendi.”

   ‘’ O HIV infecta as células do sistema imunológico ‘’ Ele ia me explicando “e as utiliza para fazer novas cópias do vírus. Estas cópias, então, continuam infectando outras células vizinhas. Com o tempo, isso vai diminuindo a habilidade do corpo em combater infecções...” E continuou a falar por longos minutos, porém, eu mal ouvia o que saía de sua boca, eram termos médicos, nomes complicados de remédios que eu deveria começar a fazer uso, enfim, montes de palavras sem nexo. Foi então que um comentário seu puxou-me para a realidade. “Você deveria conversar com sua parceira, ou com quem quer que tenha se relacionado nos últimos tempos.”

    Encarei os exames encima da mesa. “Claro.”

    Claro. Claro que não. Eu não sabia de quem havia contraído o vírus, poderia ser de qualquer pessoa que frequentasse as baladas LGBT da cidade. Relacionei-me com todo tipo de gente; homens, travestis, mulheres, transexuais. Não me envergonho de lhes revelar isso, pois foi exatamente como aconteceu. E, por favor, não me pesas explicações de como eu pude terminar em tal estado, ou o por que. Apenas olhe para a sociedade, reflita e tire suas próprias conclusões. Não pense que estou querendo tirar a culpa de meus ombros, mas imagine você andando pela rua, as pessoas lhe observando, cochichando, fazendo comentários, abafando risos, indo para o outro lado da calçada ao te encontrarem. Sempre fui reprimido por amarras firmemente colocadas, amarras sociais, dogmas pressupostos.

    Isso foi (e está sendo) o mais fácil de encarar. Mas agora vamos um pouco além: imagine-se sendo expulso de casa pelo simples fato de sua família não lhe aceitar do jeito que é. Bom, pior ainda é saber que não fui eu quem lhes contou sobre minha real condição sexual.

    Tulio vinha insistindo para que nos assumíssemos diante á minha família, mas para mim isso era por deveras complicado. Medo. Covardia. Intitule como quiser. Eu já havia ensaiado gritos de liberdade frente ao espelho, mas chegada a hora grito não saía. Fato é que quase um ano atrás eu cheguei em casa e deparei-me com uma família escandalizada, fotografias espalhadas pela mesa de jantar. Imagens minhas. De Tulio. Nós.

   Escutei tudo que disseram mudo, não contestaria. Meus avós encaravam-me como se eu tivesse cometido um crime, cuspiam palavras na minha cara, palavras que machucavam tanto quanto armas. Mamãe apenas chorava e recusava-se terminantemente á olhar nos meus olhos. Fui para o quarto arrumar as malas e quinze minutos mais tarde eu estava na calçada, meu avô ainda gritando como um doido, os vizinhos acompanhando o circo, com seus comentários inoportunos.

   Andei sem olhar para trás, sem olhar para aquela vida que não me pertencia mais.

   Fiquei escondido por alguns dias num desses hotéis de quinta. Escondido literalmente, até de mim mesmo, enojava-me encarar minha imagem no espelho. Eu queria negar aquilo que era, mas as imagens falavam por si, queria poder gritar que a culpa não era minha por ter nascido assim, mas seria em vão, eles não entenderiam. Continuariam a me culpar pelo resto da vida pela minha escolha, maldita palavra. Escolha? Vamos, me diga; você acha que se eu tivesse outra opção escolheria justamente ser assim? Ãh?

    Condição. Essa é uma condição á que você é aprisionado.

    Depois de alguns dias fui á igreja. Diziam-me que Jesus Cristo poderia me salvar se eu o aceitasse em minha vida, mas apesar de eu rezar todas as noites em voz alta e de joelhos ao lado da cama nada acontecia, ninguém descia da cruz e saltitava ao meu encontro para me ajudar. Nada. Era pecado, o pastor dizia, mas eu não conseguia entender. Não dizem que Deus criou tudo que existe na terra e ama a tudo e a todos do mesmo modo? Então porque o meu amor diferente é considerado pecado? Talvez eu devesse ter começado a frequentar á igreja mais cedo, assim, quem sabe, eu entenderia melhor toda essa situação e poderia fazer parte dos padrões impostos.

    Desisti de tudo, até mesmo de Tulio. Naquele momento até a ele eu culpava, pois se não tivesse cruzado meu caminho nada disso teria acontecido.

   Joguei-me na noite, era o que me bastava fazer. Acordar á cada manhã com uma nova companhia, um estranho. Jogava na bebida e no sexo toda a minha frustração, frustração por não ser quem minha família queria que eu fosse. Momentos de prazer, que passados deixavam um vácuo maior ainda. Cheguei ao ponto de lançar uma garrafa de uísque no espelho para evitar ver minha imagem, odiava-me cada vez mais, detestava ser esse ser considerado anormal, pecaminoso, imoral. Pegava uma lâmina e a posicionava para rasgar meus pulsos, mas tudo que consegui foram alguns poucos arranhões que mal fizeram tirar míseras gotas de sangue. Faltava-me coragem para rasgar os pulsos de uma vez. Mais uma vez esse maldito sentimento regia minha vida, o medo.

    Depois de alguns meses a febre fazia parte da minha rotina, passava dias deitado na cama do hotelzinho vagabundo. Manchas avermelhadas e irritadiças apareciam por todo o corpo, mas eu não dava importância, logo passaria, eu pensava, não é nada demais. Apesar dos sintomas perdurarem por semanas eu jurava de pés juntos que não era nada até que desmaiei e acordei na enfermaria de um hospital público.

    Ouvido o veredicto do médico eu voltei a me encarar no espelho, afinal poderia ser a última vez que eu o faria. Era só esperar, muito cômodo, não é?

   Numa manhã ensolarada senti algo chacoalhar-me pelos ombros, não sabia que a morte chegaria de modo tão inusitado. Até que ela fora rápida, essa vadia.

   “Vamos Ícaro, reaja!”

   Tulio, sempre ele, minha fortaleza indestrutível.

   “Eu estou...”

   “Já sei de tudo, levante, vamos para minha casa.”

    Fiquei agradecido por ele ter me poupado de lhe relatar minha atual condição. Até hoje não sei como ele me encontrara, toda vez que o pergunto se recusa a responder ou da um jeito de escapar pela tangente. Mas de que importa? Cansado de viver eu retornava para o seu lado, donde nunca deveria ter saído.

    Eu queria agradecer ao médico pelo elogio ao novo corte de cabelo, mas não tive forças, as palavras simplesmente não saíam de minha garganta, era como se algo as prendesse ali. Fechei os olhos e virei a cabeça para o lado, somente escutando a conversa dos dois.

    -- Ele vai continuar assim por muito tempo ainda? – Perguntou a voz preocupada de Tulio.

    -- Essa infecção foi ainda mais grave que a última, -- Disse o doutor após uma breve hesitação. – Foi causada por fatores que ainda desconhecemos, na verdade é quase um milagre ele ainda estar vivo. De agora em diante tudo depende dele mesmo, da sua reação ao tratamento, e, principalmente, da sua vontade de viver.

   -- Eu queria que ele fosse mais forte doutor, que reagisse, saísse de dentro daquele apartamento para encontrar a vida. – Essas palavras saíram vacilantes. Palavras de um ser que também estava cansado, cansado de lutar por sua vida e pela minha. Tulio recomeçou a falar, mas algo o impediu de terminar a frase, um nó na garganta. – Quanto tempo ele... bom, você me entende. – Ele só queria saber se eu morreria logo.

   -- Como eu lhe disse, tudo depende de N fatores. Ele pode ir hoje mesmo, amanhã, depois, ou viver ainda mais que nós. Nos basta esperar.

   Esperar. Eu sabia que essa palavra fazia-o sofrer profundamente, então, me decidi. Acabaria com isso de uma vez por todas. Foi com absurdo esforço que eu consegui virar a cabeça e soltar algumas poucas palavras arrastadas, quase que sussurros. 

    -- Dê os parabéns á Tulio, foi obra dele. – Disse eu, como se o comentário sobre o meu cabelo acabara de ser feito, ao simpático doutor Germano, que pareceu surpreso.

    Ele sorriu e estendeu a mão para Tulio, igualmente surpreso, que retribuiu. – Parabéns meu rapaz, você sempre salvando esse a vida desse menino. – E com uma mão hábil aplicou uma injeção em meu braço, em seguida, com o estetoscópio envolto no pescoço saiu para o corredor. – Comportem-se! – Falou colocando a cabeça para dentro do quarto.

   -- E como é que você está?

   Olhei para o meu braço, ele tinha tantos furos que poderia facilmente ser confundido com uma esponja.  – Acho que bem. Bom, melhor do que eu pensei que estaria.

   Eu podia ver no olhar de Tulio, lia em seu semblante o que sentia. No momento, apesar de feliz por me ver acordar, pareceu-me decepcionado. Comigo. Como dissera ao médico ele queria que eu fosse mais forte, que lutasse pela minha vida de modo mais decidido. Lutasse pela nossa vida. E tinha razão de decepcionar-se. Eu me tornara um ser fraco que não poderia desfrutar de todo amor que ele oferecia.

   -- Você precisa lutar. – Me pediu de modo suplicante, como se de mim dependesse sua própria vida. Ele estava debruçado sobre a cama, eu podia sentir sua respiração próxima a mim. – Somos um só, liberdade sem limite, esqueceu?

   Eu sempre dissera aquelas palavras. Um só. Livres. Continuar a decepcioná-lo contradiria tudo isso, afinal tínhamos uma história juntos, um laço que não poderia ser desfeito. Decidi que faria o máximo possível para dar á essa história um ponto final digno, mesmo que para isso fosse preciso reunir toda a força restante em meu corpo para a batalha final. Queria deixar Tulio orgulhoso da mesma maneira que eu ficava quando lia seus romances escritos á mão, ter a oportunidade de lhe dar colo e de mimá-lo. 

   -- Não. Decididamente esse não é o final. – Consegui dizer antes do remédio aplicado em meu braço fazer efeito.  

     Até para mim mesmo era difícil acostumar-me com essa nova vida. Como é que aquele garoto mimado, vindo de uma família classe média poderia se encontrar em tais condições? Eu sei, era isso que todos se perguntavam, inclusive eu. Tantos sonhos perdidos, empacotados para nunca mais. Sonhava em abrir as asas e voar, conquistar o mundo com meus escritos. Sim, sonhava em ser escritor, mas Tulio sempre foi melhor nisso que eu, escrever era outra de suas paixões, além da fotografia. Ele me incentiva muito á literatura, mas restrinjo-me á ler seus contos de caligrafia fina e não me atrevo a inventar histórias e conto essa para que mesmo quando eu não mais estiver Tulio saiba o quanto eu o amei, somente por ele. Precisei seguir o caminho mais perigoso para descobrir que não é possível viver só.

    O nariz de Tulio acariciando minha orelha fez-me despertar não sei quanto tempo depois da nossa última conversa, talvez dias. Ele cantarolava minha música preferida, era como adormecer e ter um sonho bom. Mas era vida real e eu sabia que ele estava ali. Perguntei-me se além de abdicar de sua vida social também havia largado o trabalho como fotógrafo no jornal da cidade para me fazer companhia no hospital. Tulio era apenas dois anos mais velho que eu, mas infinitamente mais maduro, conseguia enxergar tudo com calma, estava sempre de bom humor e era um garoto absurdamente amável, em todos os sentidos. Sim, ele realmente soube me cativar, e, se quiseres que alguém não se esqueça de você, simplesmente cative-a, isso o tornará diferente dos outros perante os olhos dessa pessoa, o tornará especial.

   -- Sabe Tulio, eu tive sonhos bons. – Falei sem ao nem abrir os olhos.

   -- Espero que eu esteja neles. – Falou com um risinho.

   -- Também. Tive sonhos, não sei, talvez delírios, com mamãe... Sabe, foi tão bom. Era como se minha família estivesse aqui, finalmente me aceitando... As coisas poderiam ser tão diferentes e eu me odeio por isso, eu poderia ser diferente.

   -- Não jogue todo esse fardo somente em suas costas, não se culpe, somente se aceite, hum? – Tulio entendia perfeitamente o medo que eu sentia em revelar á minha família que era gay, mas diferente de mim sua família o aceitou, continuou a apoia-lo, davam mais suporte que antes, por isso eu não fazia questão que ele entendesse essa culpa que eu sentia por tê-los perdido. – E não foram sonhos, nem delírios. – Continuou Tulio. – Sua família realmente esteve aqui.

   Meus olhos se arregalaram diante á essa revelação, senti até meu coração bater mais forte, será que enfim as coisas seriam como sempre sonhei? Eu nutria, mesmo que de modo inconsciente, esperanças de que um dia isso aconteceria novamente, ter um último momento em família, naquele aconchego, aquela tão sonhada sensação de proteção que só eles podem lhe dar.  Eles também sentem a minha falta, imagino...

   -- Não. – Disse Tulio quando eu o encarei com os olhos marejados, esperançosos. – Eles vieram ver como você estava, pagaram todos os seus gastos no hospital e..., bom Ícaro eles se preocupam com você. Lembra aquele dia em que te encontrei no hotelzinho de bairro? Então, foi sua mãe quem me disse onde você estava, ela te procurou por todo canto da cidade. Seu avô nos deu aquele apartamento e... -- Não era esse tipo de ajuda que eu queria. Tudo o que eu desejava era o amor deles, a aceitação, seria pedir demais? – Ele disse que te auxiliaria no que fosse possível, mas não quer mais...

   Fiz que sim com a cabeça. Ele não quer me ter por perto. Minha simples presença o incomoda e sei que ele não revelou á ninguém no hospital que era meu avô e sim um homem de posses que resolvera fazer uma caridade. Nesses momentos eu até acho bom não ter conhecido meu pai, quer dizer, é uma pessoa a menos pra me rejeitar.

   Tulio tentava secar minhas lágrimas enquanto eu chorava soluçante. Minha família estivera ali, tão próxima e, no entanto tão distante. Eu já sofri muito com toda essa história, me iludindo com a falsa esperança de tê-los de volta, tentaria esquecer, se é que isso é possível. Mas não importa o quanto eles me machuquem, eu sempre estarei aqui, esperando de braços abertos.

   Dois dias depois ganhei alta. Não sei ao certo se foram dois ou nove dias depois, ainda me sinto meio grogue e esqueço-me de certos detalhes. A família de Tulio fez questão de preparar uma festa para quando eu saísse do hospital, mas o médico, esse estraga prazeres disse-me que ficasse, no mínimo, mais uma semana em total repouso. Tulio ia empurrando minha cadeira de rodas – não pense que além de tudo também fiquei aleijado, o Dr. Germano fez questão da cadeira de rodas para me poupar esforços, por mais que eu me sentisse bem. - pela rampa de saída quando eu passei a mão na minha cabeça e senti que novos fios de cabelo estavam crescendo em todo o couro cabeludo, sem aquelas falhas de antes. Olhei para cima e ri para Tulio, orgulhoso dos meus novos fios.

   Entramos no carro e deixamos o hospital para trás. Apesar de saber que logo retornaria ali para meus costumeiros exames senti como se aquele ambiente já fizesse parte do passado.

    A semana de total descanso, diferente do que eu pensava, passou bem rápida. Tulio pegara férias no trabalho e passava todo o tempo comigo, os pais dele vinham quase todos os dias jantar conosco. Isabel, minha irmã, começou a nos visitar com maior frequência. Eu resistia aos impulsos de perguntar á ela sobre nossa família, talvez por orgulho ou medo de criar falsas expectativas, não sei. Nas horas vagas eu atormentava Tulio, mexendo nas suas câmeras fotográficas que cuidava com tanto amor, como se fossem verdadeiras relíquias. Às vezes eu até tinha ciúmes daquelas coisas.

   -- Cuidado com a lente! – Ele me advertia quando eu começava a fuçar nas câmeras com a curiosidade de uma criança, e como tal, logo perdia o interesse. Começava então á ler seus escritos, fazendo mil e uma perguntas sobre os personagens, o que aconteceria com eles e tudo mais.

   -- No final as coisas devem sempre terminar bem. – Estávamos deitados na cama numa noite de clima agradável, somente a luz do abajur iluminando o quarto, a porta da sacada estava aberta e éramos banhados pela luz de uma lua cheia.  Tulio falava sobre como terminaria um conto que começara á escrever.

   -- Nem sempre as coisas são assim.

   -- Eu sei, mas devemos sempre esperar o melhor, por mais terríveis que as coisas estejam. A vida é sempre o maior espetáculo.

   Por isso eu amo ele, tão doce e sonhador que me cativa á cada vez que abre a boca, mesmo que seja para soltar um arroto.

   Sem medo me lanço ao seu encontro num beijo quente, amassando as folhas de papel que estão entre nós. De início Tulio parece meio confuso, até tenta se esquivar, certamente estranhando minha repentina mudança.

   -- Ei mocinho, um só, liberdade sem limite, esqueceu? – Fasso de modo teatral. Ele ri e depois de soltar algo do tipo “se você não existisse eu te inventaria” retribui o beijo.

   Corpos deslizando, selando, juntando. Coisa que algumas semanas atrás eu não imaginava que teria coragem de fazer novamente. Entregar-se sem medo, conhecer a essência do outro no sentido mais puro da palavra, sem vergonha, desconfiança, sem pudor algum, esquecer-se de todos os dogmas sociais. Não era um simples momento de transa, era mais do que isso, um encontro de almas, algo absurdamente intenso. Eu sei, com essas minhas palavras posso parecer aos seus olhos um garoto por deveras piegas, porém nem sempre fui assim (e além do mais estou aprendendo á ignorar o que as pessoas pensam de mim). Foi Tulio quem despertou esse lado que até então eu desconhecia, o amor tem dessas surpresas, ele pode despertar sentimentos que nunca imaginávamos que sentiríamos, em suma; o amor nos transforma.

    Devo lhes informar que também ganhei peso, e graças ao meu Sentinela Sempre Atento tomava todos meus remédio sem um minuto de atraso, que curiosamente não causaram mais efeitos colaterais. Meu cabelo voltou ao seu tom negro, não tão espesso quanto antes, mas ao menos eu podia dizer que tinha cabelo, consequentemente eu e Tulio voltamos a ser confundidos como irmãos. Não desmentíamos, de fato éramos irmãos. De alma.

   Voltei á fazer testes nos teatros da cidade, queria voltar para os palcos, de onde eu saíra há mais de um ano. Agora, porém, eu reagia de modo mais maduro ao receber um não, era capaz de rir de tudo. Agradecia aos diretores pela oportunidade e agendava outro teste para a próxima temporada de espetáculos, mais dia menos dia eu conseguiria, era uma questão de tempo, e, principalmente de paciência. Retornava para casa exausto, mas o olhar orgulhoso de Tulio dava-me forças para o dia seguinte.

  E a festa! Bom eu já estava devidamente recuperado quando Noêmia, a mãe de Tulio nos ligou convidando-nos para a tão aguardada festa ao meu retorno para casa. É claro, de início me fiz de difícil, dizendo que não havia motivos para tanto, mas quando me foi revelado que eu passara quarenta e sete dias nas dependências do hospital decidi que a festa seria um evento mais do que justo.

   No domingo o despertador tocou ás seis da manhã, eu e Tulio nos arrumamos e fomos fazer nossa caminhada matinal. Algum tempo antes eu reclamaria como um tio caquético e chato para acordar tão cedo, mas como já lhes disse, sofri muitas mudanças, para melhor ao que me parece.

   Compramos uma água mineral para hidratar e sentamos no gramado sombreado pelas árvores da praça central.

   -- É incrível te ver assim Ícaro.

  -- Por você. – Disse eu entre um gole de água e outro. – Somente por sua insistência.

   Ele sorriu e eu percebi que estava emocionado.

   -- Obrigado por não desistir de mim.

   Seus lábios estreitaram-se num sorriso ainda maior, os olhos brilhando como o mar refletindo a luz do sol. Deitamos no gramado e ficamos por um bom tempo ali, conversando silenciosamente, se é que me entendem. Ás vezes podemos nos expressar melhor com um olhar, ou com um simples toque do que com mil palavras. Pessoas que matraqueiam com demasiada frequência na verdade são vazias e apesar de despejarem litros de palavras encima de você, não conseguem dizer nada.

   Às dez horas voltamos ao nosso apartamento para tomar um banho revigorante. Estava sem fome, mas mesmo assim comi um pote de gelatina, só para repor as energias. Dei uma rápida organizada no quarto e seguimos para a casa dos pais de Tulio para a tão aguardada festa. No meio do caminho fiquei pensando em determinados assuntos; A família de Tulio era mais simples e apesar disso aceitavam sua condição sexual naturalmente, a minha era abonada, mas insistia em defender aquela visão pequena. Decididamente a condição social, cor ou credo, de nada influencia. Eu não culpava meu avô, ele fora criado de outra maneira, numa cultura diferente, com regras e costumes que dificilmente eram quebrados. Ele viveu assim ao longo de toda a sua vida por isso não poderia pedir que mudasse sua visão assim, de uma hora para outra. Quem sabe um dia ele caia na real.

   Se quiser saber, também não descobri quem enviou aquelas fotos á minha família, no momento isso já não importa, na verdade a criatura até me fez um favor, seja ela quem for.

   Quando estacionamos frente à casa de alvenaria verde limão tudo estava anormalmente calmo para um local que receberia uma festa.

   -- Será que eles cancelaram e se esqueceram de nos avisar? – Perguntei á Tulio.

   Ele encolheu os ombros e abriu o portão da frente, fazendo um gesto para que eu entrasse primeiro. Fui andando pela calçada admirando o quintal cuidado com tanto esmero. Toquei a campainha, mas ninguém se pronunciou á porta. Tulio girou a maçaneta e empurrou-a. Nada. Entramos e pude ouvir uns risinhos abafados vindos de trás das cortinas.

  -- Não acredito! – Eu gritei aos risos quando todos saltaram de trás dos móveis berrando “surpresa!”. Até então eu pensara que seria algo mais íntimo, mas todos estavam ali, primos, tios, irmãos, gente que eu nem conhecia. Demorei algum tempo para encarar todos os rostos que estavam ali, comemorando.

   Do amontoado de gente um rosto se sobressaiu.

   -- Mãe...? – Eu fiz mal acreditando no que via.

   Ela abriu os braços e eu corri ao seu encontro e a abracei tão forte que devo tê-la deixado sem ar. Senti como se minha vida pudesse ser resumida àquele abraço. Ver mamãe de braços abertos em sinal de aceitação era algo único. Foi o momento em que mais perto da felicidade plena cheguei. Isabel também veio e juntou-se ao abraço. Não esperei que vovô também saísse de trás de uma cortina ou de um móvel qualquer, quanto á ele as coisas seriam mais difíceis.

   Mamãe levantou a cabeça e fez algo que eu não esperava, chamou Tulio para juntar-se a nós. E ele o fez, com um sorriso no rosto e lágrimas nos olhos, assim como todos que estavam ali.

   Senti-me um ser humano pleno em sua essência, sem mais medos do preconceito da sociedade, sem medo de nada, porque sim, com o apoio da família você se sente invencível. Apoio esse que eu imaginei nunca sentir, mas que agora se concretizava naquele abraço.

   Quando nos afastamos, depois de longos e deliciosos minutos, toda a família de Tulio aplaudiu. Todos acompanhando esse pequeno e simples espetáculo da vida, mas de importância descomunal. Depois desse dia eu teria ainda mais forças para lutar, era como se eu estivesse mais... Completo.

   Tulio saiu correndo da sala e rapidamente retornou com uma de suas máquinas fotográficas nas mãos.

   -- A foto pessoal! – Anunciou ele, programando a câmera e colocando-a encima de um aparador. – Em quinze segundos! – Ele correu para o meu lado e rapidamente todos nos juntamos para uma foto em família.

   Então eu chorei, mas foi de felicidade - era quase inimaginável esse momento - tentei me recompor o mais rápido que pude, não queria sair na foto com a cara toda retorcida e lágrimas rolando pelo rosto.

   Em quinze segundos essa imagem ficaria retida pela eternidade, “só a imagem retém o tempo” repetia Tulio cheio de si quando me mostrava as fotografias que tirava.

   Todos nós soltamos um sonoro “xis!” e o flash disparou. Momento eternizado.

   Talvez aquela fosse a última foto em família, nunca se sabe o dia de amanhã, mas o que importa é o agora, nada mais. Todos nos abraçamos animados, formando um verdadeiro bolo humano. Um momento ímpar em nossas vidas.

   Desse momento em diante senti que teria total coragem para encarar a vida e voar, assim como o Ícaro da mitologia, voar tão alto quanto ele, o mais próximo do infinito possível. Sentir o vento no meu rosto, o prazer de alçar voo por meu próprio esforço, respirar a vida que existe além daquele monótono apartamento. Tenho certeza que enquanto cada um nesta sala viver essa história não morrerá. Sei que Tulio um dia a recontará na forma de um de seus romances.

    Mas é claro, como diz o mito meu futuro já está marcado, dado momento minhas asas derreterão e eu sucumbirei. Mas tudo isso terá valido á pena porque eu consegui amar e ser amado, missão cumprida.

   No final da história tudo se resume á essa simples palavra; amor...

 

Fim

Conto dedicado á todos os Ícaros que também sonham em voar, sem medo de ser

como são.
 
Texto escrito nas madrugadas de Junho de 2011


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