quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sobre Partidas






   Julguei ser impossível amar tanto alguém sem obter o mínimo de reciprocidade.
   Como sempre que julgamos, estava errado.
   Minha visão errônea de um mundo inexistente desfazia-se.
  Era como o fim de um ciclo. Um doloroso processo de perca da inocência, daquele pensamento de discurso amoroso tão belo que sempre me foi cultivado.
  Pus meu sentimento para dormir, alojei-o em algum canto escondido do meu ser, e não foi por escolha. Foi necessidade. Precisava parar de gastar tantas energias, de me doer. Porém ele continua lá, e eu lhe aviso que tem sono leve, portanto não tente acordá-lo, pois ambos sabemos que ele nunca virá a ser realmente no viver, apenas no papel.
  Prometo nunca mais tocar no assunto se me prometeres nunca retornar, não deixar mais seu cheiro impregnado na minha pele, nem sorria com o canto da boca. Só quero que o deixe dormir. Como todo animal selvagem, meu coração não deve ser perturbado, deve ficar lá, isolado de todo e qualquer perigo, de todo estranho que se atreva a entrar. E se caso acontecer novamente quem sofrerá as consequências não será ninguém além de mim mesmo. Meu próprio sentimento seria capaz de me matar.
   Não teria mais forças para reconstituir-me novamente.
Eu lhe amo, e sinto que amarei até o fim dos meus dias, porém não posso repetir isso muito auto, ele corre o risco de acordar.
  Parafraseie um desses mocinhos de um romance qualquer e sussurre em meu ouvido que nunca retornará. E então parta, sabendo que sempre te carregarei comigo, como o primeiro que realmente am... se é que isso importa.



sábado, 16 de março de 2013

Angústia


   

   O gesto de te abraçar parece realizar por um momento o sonho da união total contigo. É um instante de sono, sem dormir, é quando tudo fica suspenso: o tempo, a lei, a proibição: nada cansa, pois todos os desejos parecem transbordar-se, saciar-se.
   Tal transbordamento existe, e vou querê-lo sempre, vi-me viciado. Teimarei em querer reencontrar, renovar, saciar o desejo de uma nova união – da contradição – da contração de um novo abraço.
   Ao longo de minha vida posso encontrar milhares de corpos, desejar metade deles, relacionar-me com dezenas, porém amo apenas um. Designo a você toda a especialidade do meu desejo. É uma “escolha” rigorosa que só retém o Único. E foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez até muitas procuras) para que eu encontrasse a Imagem, que entre mil, convém ao meu desejo. Foi necessária muita sorte (azar?) para que eu encontrasse você.
  E agora, depois de algum tempo eu paro e pergunto a mim mesmo o que tanto você questionou; O que é que fez eu me apaixonar justamente por ti? É um enigma do qual eu nunca obterei soluções: Porque te desejo? Porque te desejo por tanto tempo? Seria você como um todo, o corpo, silhueta, personalidade, ou a fonte de tal de desejo reside nos pequenos detalhes; numa unha bem feita, no cabelo bagunçado ou na pele incrivelmente macia?
   De todos esses relevos do seu corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: Esse é meu desejo, tanto que único, tanto que eu nunca consiga realizá-lo.
   Os psicóticos passam a vida toda sob o temor do aniquilamento, e, por mais curioso que seja, parece ser o mesmo que a angústia de amor, um temor de um luto que já ocorreu, desde a origem do amor, desde o momento que fiquei encantado, muito antes de dizer que lhe amo. Seria preciso que alguém me dissesse “Não fique tão angustiado, você já o perdeu” Ou melhor, ainda: “Não fique tão angustiado, ele nunca foi seu”. Você sempre será meu ponto fraco.
   Apesar de tudo isso, eu te amo, sem porque, sem pra quê. Eu te amo com cada ínfima parte do meu corpo, o desejo com intensidade e sofro com a angústia do fracasso, com o aperto esmagador no peito. Resta-me dizer que eu sempre estarei aqui, á espera caso decida vir, e mesmo que pense nunca mais me transbordar com um de seus abraços, não importa, continuarei a lhe esperar mesmo assim, até o fim dos meus dias.


O amor é objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.
Schopenhauer




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Iminência Das Poéticas



    



O título desse texto foi também o tema da trigésima bienal internacional de arte; A Iminência das Poéticas, dos dizeres subjetivos injetados nas obras por cada um dos artistas. Do poder reflexivo que elas nos proporcionam, trazendo á tona questões que não havíamos parado para pensar antes, e, que, muitas vezes estavam diante de nossos olhos, porém a vida cotidiana não nos permitia perceber.
   O grande desafio enfrentado tem sido justamente o de agregar essa dimensão poética da arte em seu poder de oferecer outra voz e outro olhar á ação educativa, que valoriza outros modos mais convencionais e didáticos de significar as vivências artísticas.
   Devemos, antes de tudo, deixar de encarar a arte como algo unicamente racional, conceito que foi criado o Renascimento e veio sendo cultivado em outros estilos, onde sua produção era extremamente técnica. Devemos tirar o verniz cultural que a reduz ás “Belas Artes”.
   Podemos implementar na educação da arte outra lógica – a poética – que não nos fornece explicações sobre o mundo, mas experiências do e no mundo. É ato, não apenas discurso sobre, não se tratando apenas de consumir conhecimento, mas favorecer aprendizagens que tenham como base a experiência, a vivência do mundo. É nesse processo de decifrar o mundo que se dá a experiência poética. Um ato que se elabora para além das palavras, que não precisam ser verbalizados, basta apenas o corpo agir.
   Para o poeta Valéry (1999, p.191), “na produção da obra, a ação vem sob a influência do indefinível” e não pelo definível pela clareza conceitual dos logos. As coisas, a todo o momento, nos interrogam e exigem de nós ações no mundo. Exige que inscrevamos um sentido naquilo que não tinha, indo além do palpável, do óbvio, do objetivo.
    Já dizia Aristóteles – Acredito que a arte esteja fortemente embasada na filosofia, por esse motivo cito Aristóteles aqui – em Arte Poética, que o que está sendo dito, sem deixar de ser claro, não deve ser “rasteiro”, devendo antes ser “nobre” e, de preferência, afastado do uso vulgar.
    A transformação da arte em matéria – no produto final – implica em todo um processo de criação, onde materializamos, deixamos a marca de tudo o que sentimos, de toda a concepção que criamos sobre o mundo e as coisas que o cercam, através de nossas experiências.
    É uma captura-escuta de mim, que eu não sabia poder realizar, que faz com que eu aprenda a transformar meu pensamento, emprestando uma existência poética ás coisas que me cercam.
   Explorar e investigar uma série de matérias-primas, faz parte da experiência tanto de artistas quanto de professores de arte, e isso requer um extenso conhecimento e uma imensa variedade de possibilidades técnicas. Entretanto, de nada serve a técnica se dentro dela não estiver uma alternativa que possa adequar-se á poética daquele que a projetou.
   Nossa única saída – não somente na escolha de materiais, mas também nos critérios avaliados para se fazer alguma criação – é nos arriscarmos. Aguardamos sempre pelo imprevisto, pelo impensado, por aquilo que nos fará perceber que a busca valeu a pena. Todo esse tempo que passamos em busca de respostas é necessário, é um tempo de aprendizagem, de coleta de experiências e vivências, e por mais que consigamos responder á determinada questão, não teremos muito tempo para descansar, pois logo surgirá uma nova pergunta, e só suportamos essa ausência de respostas, por acreditarmos que na pergunta que reside o impulso de toda a atitude criadora.
    Questionar nossos modos de pensar e agir em educação pode nos desestabilizar, mas também pode promover o confronto necessário para sairmos do lugar em busca de outros modos de pensar os processos de aprendizagem na especificidade das linguagens plásticas. Desse modo a “desacomodação” nos permite perceber as fronteiras entre o exterior o interior, mente e corpo, ser e mundo de modo permeável e distinto do habitual.



Trabalho teórico realizado na disciplina de Pintura I.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Tudo Aquilo Que Nunca Foi Dito

 
 

  

   Há algum tempo gostaria de falar sobre as palavras que insistem em travar na minha garganta, e, que cedo ou tarde podem me sufocar. Gostaria de me livrar desse terrível mal: O de não conseguir verbalizar o que se sinto.
   Talvez por incompetência, falta de experiência, ou porque não chegou o momento certo de lhe dizer tudo. Os motivos eu desconheço. Prometi a mim mesmo que seria corajoso e levaria essa história até o final. Prometi que nada abalaria o amor que sinto por ti, e que jamais permitiria que as pessoas tentassem desestruturar as coisas nas quais acredito.
   Eu prometi tantas coisas...
   Dos escritos arquivados, do sentimento gravado á tinta no papel, de tudo aquilo que lhe escrevi, mas não tive coragem de entregar. Cada palavra lutando dentro de mim, abrindo caminho garganta afora como se tivessem garras e vacilando na ponta da língua, cada grito ensaiado frente ao espelho... Cada tentativa falha de provar que lhe amo. Tudo aquilo que nunca foi dito acumula-se em meu peito e me infecta como uma doença terminal.
   Eu morro todos os dias á sua espera, ansiando por um único beijo, um encontro, ou uma simples troca de olhar, e, se possível, ouvir de sua boca apenas duas palavras; “Eu também”. Eu morro todos os dias ao perceber que nada disso jamais acontecerá, e, principalmente, por constatar que a maioria das minhas promessas foram quebradas.
   Já não sei mais em que acredito, se é que acredito em algo. Permiti que colocassem em dúvida minhas crenças, fui incapaz de provar o meu amor e pior de tudo, deixei que ele se transformasse em algo ruim, pois meu sentimento não me dá o direito de posse sobre ti. E agora, bom, já é tarde pra qualquer mudança de ideia.
   Só tenho de me desculpar.
   Por não saber o que dizer e por eventuais incômodos.
   Eu sinto muito,


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Desapego


 
 


    Naquele dia acordou cedo. Não era de seu costume, porém estava inquieto demais para continuar na cama. De hora em hora pesadelos horríveis o acometiam. E, por mais que rezasse ajoelhado ao lado da cama, nenhum Deus descia da cruz para ajudá-lo, nenhum sinal de que tudo terminaria bem lhe era dado.

   Acordara para aquele que poderia ser seu último dia. Dali a algumas horas passaria por uma delicada cirurgia, e, o médico já havia lhe avisado das chances de não sair mais da sala cirúrgica. Aquilo lhe acometera como um soco no peito. Sentado na cama, ele repensou em toda a sua vida e se perguntou onde é que havia errado, o que fizera pra chegar até ali.

   Agora a revolta já havia passado. Aquelas questões de porque o resto do mundo parecia tão perfeito e feliz, enquanto ele se torturava com seus medos inseguranças, já não o acometiam com tanta frequência quanto antes. Parecia ter se conformado, até. Se conformado em ser um alien, diferente de todos, um aspirante a intelectual que tinha mais inseguranças que uma criança de doze anos de idade.

   Repensou tudo que havia feito e chegou a conclusão de que talvez o problema estivesse enraizado naquilo que não havia feito. Deixara tanta coisa em sua vida passar. Privou-se de tantos prazeres, limitou-se, não se permitiu.

   Levantou-se e afastou as cortinas para que pudesse abrir a janela, deixando que a brisa do amanhecer lhe acariciasse o corpo. Teve vontade de se desfazer em fragmentos, deixar-se ir com o vento para algum lugar, para lugar algum. As frustrações de uma vida mal vivida, de amores não correspondidos, não permitiam que ele continuasse a viver. Aquela doença talvez viesse somente para fazer aquilo que ele não tinha coragem de fazer com as suas próprias mãos; acabar com tudo de vez.

   Era reconfortante, sim, tudo acabado, sem mais sofrimentos, sem lágrimas, sem aquela sensação esmagadora no peito, sem palavras formando nós na garganta. Sem nada. Só a morte e tudo que pudesse vir acompanhado dela.

   Não contou para ninguém os reais motivos da afastação do trabalho e dos amigos, não queria que ninguém se preocupasse, nem perdesse seu tempo pensando nele. Aquele era o momento do ponto final.

   Olhou para seus livros na estante e se perguntou por que cargas d’água havia amontoado todas aquelas histórias ali ao longo de sua vida. Agora lhe parecia algo tão sem sentido, pra onde iria não poderia levar nada consigo. Foi tomado por uma sensação de desapego, uma deliciosa sensação de que nada é seu, de deixar ir, de não querer se apossar de modo doentio das coisas.

   Naquele dia ele se desapegou de tudo, inclusive da vida.

  E antes de partir, quando ainda estava lúcido, se perguntou por que não se desapegara de tudo antes. As coisas poderiam ter sido tão mais fáceis.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

A Minha Única Exceção




 
Durante toda a minha infância e adolescência eu presenciei meus pais brigando. Eram gritos, insultos de ambos os lados e até ameaças de agressão física. Poderia ser somente uma fase, eu pensei por algumas vezes. Uma fase que durou anos.

   Certo dia, no auge dos gritos, eu berrei ainda mais alto implorando que parassem com aquilo. Ao perceber meu estado de desespero ambos silenciaram, encarando o chão, certamente decepcionados consigo mesmos. Então vos perguntei por que é que continuavam juntos, pra que manter uma relação que os desgastava e ao mesmo tempo me traumatizava tanto? Era por prazer, sadomasoquismo, vingança? A resposta, lhes garanto que nem eles sabiam. Haviam se acostumado com certo tipo de tristeza, pareciam orbitar envolta daquele clima pesado no qual eu era obrigado a conviver também.

    Estavam a mais de vinte anos juntos, porém chegou um momento em que eu me perguntei se algum dia eles realmente chegaram a se amar verdadeiramente. A conclusão á que cheguei, foi não.

   Tão cedo eu já percebera que o amor não é e nem deve ser tratado como algo banal. Mas, ao mesmo tempo, eu soube que nunca queria senti-lo. Então, naquele momento, sentado contra a parede do banheiro e com as mãos tapando os ouvidos, numa vã tentativa de abafar os gritos, eu prometi a mim mesmo que nunca escreveria sobre o amor. Esse sentimento tão contraditório não merecia ter meu tempo a ele dedicado.

   Nunca perderei meu tempo com o amor.

   E eu realmente fui forte. Mantive essa ideia viva por muito tempo.

   Mas bastou te conhecer, para que todo o meu mundo e todas as opiniões que eu tinha caíssem por terra.

    Querido, você é minha única exceção.

   Eu sempre tive um forte controle sobre a realidade, mas você chegou e me desestabilizou completamente e apesar de saber que você vai embora, amanhã quando acordar quero que deixe uma lembrança, algo que diga a mim mesmo que meu amor foi real — diferente do dos meus pais — que diga que tudo realmente aconteceu.

   Deixe uma prova de que isso não foi um sonho, e então se afaste. Mantenha uma distância confortável. Porque querido, você é minha única exceção.
 
 
 
 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Desencantado


   
 
  — Ai meu Deus! — Gritou Gustavo saindo de uma das baladas mais populares da cidade ao mesmo tempo em que procurava o celular nos bolsos da calça. Olhava para todos os lados a beira das lágrimas, certificando-se de que Marina, a melhor amiga, não viesse ao seu encontro. — Oh, vida de merda! — Repetia ele discando um número no aparelho enquanto as lágrimas inevitavelmente jorravam de seus olhos como o sangue de uma artéria cortada. A verdade é que se sentia pior do que uma fralda geriátrica usada e dificilmente conseguiria mudar esse status, o telefonema que estava prestes a fazer, pelo ao menos, amenizaria seu estado de espírito. Descarrego de consciência, como se diz por aí.

    Não que a festa não estivesse boa, pelo contrário, se divertira á beça, e, bom, é verdade que bebera um pouco, mas nada que o fizesse confundir churros com um pênis comestível. O que lhe fez sentir-se assim foi meia dúzia de beijos trocados com Pedro. Porém não pense que Pedro beijava mal, ou que estava abaixo dos padrões de beleza, o garoto era um dos mais desejados da festa e Gustavo ficara com ele naquela noite. Seria motivo de risos, não de lágrimas, você pode pensar. Isso, se os beijos tivessem rolado á três meses atrás.

   A três meses Gustavo ainda não se apaixonara perdidamente por Henri, um menino da cidade vizinha. É fato que até então ninguém despertara tal sentimento nele, fora somente com Henri que Gustavo sonhou em se casar e ter filhinhos. Do alto de seus vinte anos de idade sentia-se com a experiência amorosa de um garotinho de doze. Era realmente lamentável.

   Desde que o conheceu numa oficina de teatro não conseguiu mais tirá-lo da cabeça. Já repetira isso á Henri por dezenas de vezes, seja por telefone, chat do facebook e ao vivo, na única ocasião em que pseudo-ficaram. — Eu te amo!— E mesmo sabendo que tal amor não era de todo recíproco (e talvez nunca viesse a ser), Gustavo não tinha medo e tampouco vergonha de proferir o que sentia, porque pela primeira vez era verdadeiro, e, até o momento, Henri fora tudo que ele conhecera sobre o amor, era ele quem fazia Gustavo querer se tornar uma pessoa melhor.

   E nesses três meses ele não quis conhecer mais ninguém, e realmente não conhecera. Manteve-se fiel á Henri. Pensamento que era completamente descabido segundo Marina.

— ACORDA GUSTAVO!— Gritou a amiga, após uma breve discussão em seu quarto antes de saírem para a festa, quando Gustavo mostrou-se relutante em querer acompanhá-la — Vocês nem namorados são, e além do mais ele já repetiu dezenas de vezes que só te vê como amigo, nada além disso! E você ainda quer se recusar a aproveitar um sábado a noite por medo de conhecer outra pessoa?! — Assim que terminou de falar Marina teve tempo para recuperar o fôlego. Era de seu costume falar rápido demais e muitas vezes até sentia-se tonta por fazê-lo com demasiada frequência.

   Com os lábios levemente curvados para baixo Gustavo sentou-se na cama encarando seus pés vestidos com um par de meias surradas. — É que eu o amo, poxa. Não vejo motivos para ir á uma festa sabendo que Henri não estará lá.

   — Antigamente a minha companhia bastava. Já agora... — Marina pareceu murchar sentando-se ao lado de Gustavo, mas é claro que era somente mais uma de suas táticas para tentar fazer o amigo mudar de ideia.

  — Você entendeu o que eu quis dizer. — Disse ele olhando de esguelha para a amiga.

  — Caramba Gus, todos os nossos ex-colegas do ensino médio estarão lá...

  — Não os que estão trabalhando na aurora. — Observou Gustavo.

 — Realmente.   

 — Nem os que tiveram filhos ou se casaram. Ah, também tem aqueles que se casaram, tiveram os filhos, trigêmeos, na maioria dos casos, e se divorciaram, não fizeram as coisas necessariamente nessa ordem, mas mesmo assim acho difícil algum desses aparecer, já, atualizando os dados restam vinte por cento da turma, ou seja, eu, você e o clubinho...

   — Ok, Gustavo! — Marina jogou a bolsa na cama de modo teatral. — Você me faz perder a paciência, eu hein.

   O garoto deu uma última olhada em seu reflexo no espelho, jogou a franja para o lado, vestiu seu all star amarelo e saiu porta afora. Marina saltitou da cama assim que o amigo saiu do quarto e soltou gritinhos estridentes enquanto batia palmas de modo retardado. — Consegui! — Guinchou ela.  

   Desde o momento em que pisou na pista de dança Gustavo não deixou de pensar em Henri um instante se quer. Como seria se ele estivesse aqui? Será que gostaria da minha roupa? Aaaaaaaah, seria tão mágico dançar essa música com ele! E então começou a beber. Quero te chupar, Henri. Seria uma ótima noite pra gente transar, né não?  Caralho, eu te amo seu filho de uma puta! Ridícula! Simplesmente ri-dí-cu-la essa sua atitude de não me querer...

  Foi então que Pedro chegou com aquele seu jeito encantador (não mais do que Henri, que fique claro), pagando mais bebida e pronto. Nem Gustavo mais soube ao certo como tudo aconteceu, percebeu o latrocínio que estava cometendo quando, sentado na poltrona num dos cantos do ambiente, Pedro lhe convidou para dormir em sua casa. Gustavo arregalou os olhos e se afastou um pouco para observar melhor o garoto que acabara de fazer o convite tão ousado. — Ai Meu Deus...

   — Onde é que você vai? — Perguntou Pedro quando Gustavo se levantou.

   — Hã... — Num primeiro momento ele hesitou, não sabia se realmente poderia contar o que iria fazer. — Bom, eu vou fazer uma ligação. — Melhor assim. Não mentir. Seria uma coisa a menos para pesar em sua consciência depois. — E saiu às pressas dali. Antes de atravessar a porta de entrada avistou Marina agarrada á um Drink no balcão, dando encima do barman.

   Já do lado de fora ele tremia tanto que mal conseguia discar os números, por duas vezes quase deixou o celular cair de suas mãos. Na primeira tentativa o telefone chamou, mas ninguém atendeu. Discou novamente. Gustavo precisava falar com Henri, precisava lhe dizer o que havia feito em seu sábado á noite, que ficara com Pedro, mas que não fora nada de mais, que não era Pedro que tomava seus pensamentos por horas a fio durante os últimos três meses e sim ele, precisava se desculpar, afinal que moral teria ele para dizer que o amava sendo que ficava com outro garoto quando Henri não estava por perto?

   — Oi.— Disse uma voz um tanto sonolenta do outro lado da linha. Era a voz dele, Gustavo soube de imediato, aquela voz que por tantas vezes lhe deixara sem fôlego, sem saber como agir. Antes que pudesse responder Gustavo sentiu alguém tomar o celular de suas mãos é força. Num primeiro momento pensou que pudesse estar sendo assaltado, mas assim que se virou viu Marina enfiando seu telefona na bolsa.

  — Marina, Ficou louca?! — Berrou ele. — Eu estava falando com Henri, eu precisava dizer á ele que tinha ficado com Pedro e me desculpar...

  — Se liga!— A amiga o puxou para o lado, para que ninguém pudesse ouvir a conversa que estavam prestes a ter. — Você não deve satisfações á ele, quantas vezes eu telho que te lembrar?

  — Ele tem o meu amor, e isso basta...

   Marina respirou fundo, por mais dolorido que fosse, era necessário que o amigo levasse um choque de realidade. — E você acha, sinceramente, que ele está pouco se lixando pra esse amor? — As palavras o atingiram como bombas silenciadoras. Quando percebeu as lágrimas brotarem dos olhos de Gustavo, Marina se perguntou se não havia sido um tanto cruel no uso de suas palavras. E então o abraçou, era tudo que poderia fazer no momento. — Você quer uma água? — Perguntou depois que o acompanhou até a entrada e acomodou cuidadosamente o amigo numa das poltronas.

    — Sim, eu quero água... — Veio a resposta soluçante. — Não, quero um travesseiro fofo. PORRA MARINA, EU QUERO O HENRI!

   — Shiii... — Fez a amiga abraçando-o novamente. — Olha, antes de buscar sua água eu preciso lhe mostrar algo.  — Levou a mão até a bolsa e de lá tirou seu aparelho celular com a página do facebook aberta no perfil de Henri. Tinha plena consciência de seu ato e sabia que se mostrasse aquilo para Gustavo ela poderia passar as próximas três semanas ou mais consolando o amigo, comprando lencinhos e comendo chocolate feito uma porca. Era o que ambos chamavam de depressão coletiva. Respirou fundo e esfregou o celular na cara de Gustavo. — Veja.

   Teve de esfregar os olhos para ver se estava enxergando bem. Era realmente a conta de Henri naquela rede social que não era coisa de Deus, e a última atualização de status era de duas horas atrás; “Em um relacionamento sério com João Paulo Montéz.”

   Cinquenta e sete pessoas curtiram isso

   O garoto sentiu vontade de encarnar Maysa e cantar “Meu Mundo Caiu”. Não que fosse exagero, ou drama de sua parte, mas seu mundo realmente caíra. Nunca um status meu teve tantas curtidas, pensou ele com seus botões. Não que isso importe de algo, mas tipo, quer dizer que tem bastante gente que torcia para que os dois ficassem juntos e eu sou uma merda, não, uma merda não, uma fralda geriátrica usada. Ele também não conhecia o tal de João Paulo, mas prometeu a si mesmo que assim que cruzasse com o garoto arrebentaria a sua cara. — Como eu sou bobo, Marina. — Foi o que conseguiu dizer. E realmente era. Enquanto estava com a consciência hiper pesada unicamente por ter ficado com outro, se punindo mais que uma virgem escriba, Henri estava lá trepando com o tal de João Paulo, ele tinha certeza. Seu filho de uma puta, infeliz e desgraçado! Sentiu uma raiva insana acompanhada de uma boa dose de vontade de fazer tudo aquilo que não havia se permitido até então. Não iria mais esperar “a pessoa certa” para fazer as coisas, se fosse assim nunca faria nada, nem perderia a virgindade. Ele tinha vinte anos e ainda era virgem! Como se sentia ridículo! Até parece que alguém, em pleno século XXI se importa em encontrar a pessoa certa. A vida parecia se resumir em foder e morrer. Agora de uma vez por todas, estava decepcionado, desencantado com o amor.

    — Minha água, Marina. — Pediu ele depois de respirar fundo, devolvendo o celular com a conta de Henri ainda aberta.

   — Ah, sim. — Lembrou-se ela. Deixou a bolsa ao lado do amigo, e, fazendo um último cafuné foi em direção ao bar.

   Pedro parecia estar de saída, e quando Marina já não estava mais a vista, Gustavo fez um sinal para que ele se aproximasse. — O convite ainda está de pé? — Perguntou assim que ele lhe estendeu uma lata de energético.

   Um leve sorriso se estendeu no canto da boca de Pedro. — É claro. — Confirmou.

   Tomado por uma coragem que nem sabia que tinha Gustavo arrastou Pedro para o estacionamento, empurrou-o para cima do carro e se lançou num beijo quente. Mordiscou a orelha de Pedro, lambeu o seu pescoço, e, abrindo sua camisa xadrez foi descendo por seu corpo. O pênis dele já estava ereto sob a calça, Gustavo pode sentir assim que o tomou em suas mãos. — Ei, espera. — Disse Pedro, com aquele mesmo sorriso de canto de boca, desligando o alarme do carro e indicando que Gustavo entrasse. E foi o que ele fez. Assim que fechou a porta do carro viu Marina pelo espelho retrovisor, ela parecia preocupada, a sua procura. Foda-se, a noite agora é minha.

   Iriam para a casa de Pedro trepar, talvez nem chegassem até lá, no carro parecia bem mais excitante, e acordariam na manhã seguinte como conhecidos apenas, completamente diferente de toda aquela coisa que Gustavo havia idealizado durante toda a sua vida, e principalmente, nos últimos três meses.

   Sua vida daqui para frente seria assim; sem idealizações. Sem fantasiar a sua existência como se vivesse um conto de fadas, á espera de um príncipe que lhe salvaria da vida monótona. Definitivamente era uma perspectiva bem menos encantada da que estava acostumado.

   Era “Cair na real” como Marina lhe dissera por tantas vezes.