quinta-feira, 23 de outubro de 2014

#1 Resenha - Ratos


            Um livro é uma inesgotável fonte de sabedoria, é como se neles conseguíssemos encontrar todas as respostas para os infindáveis questionamentos existenciais que surgem ao longo de nossas vidas.
            Sempre tive muita, MUITA dificuldade em verbalizar as coisas que sinto, e são justamente essas palavras não ditas que muitas vezes comprimem meu peito e apertam a garganta. Então, especialmente para mim, os livros – cada um que passa pelas minhas mãos – tem um gosto e uma significação especial. Eu encontro um pouco de mim em cada um deles, e eles se encontram dentro de mim – é uma relação extremamente recíproca. Um livro é como um refúgio, um melhor amigo, a melhor de todas as companhias. Sei que essas palavras podem soar clichês, mas somente para pessoas que não sabem o que é isso, que não sabem o quão magnífica podem se tornar nossas relações com os vários mundos que nos são apresentados nesses fascinantes amontoados de páginas.
            Feitas essas breves (e necessárias) palavras introdutórias, vamos a primeira resenha do Delirium!



Autor: Gordon Reece
Editora: Intrínseca
Ano: 2011
Páginas: 238
Valor: 9,90 (no submarino)


            Ratos é uma leitura questionadora sobre a existência humana; Shelley (cuja história é narrada sob sua perspectiva) intitula a si e a sua mãe como “ratas”, pois viveram uma vida toda sendo coagidas, aceitando o que lhes era imposto sem questionamento algum, sem nenhuma reação à determinada situação, simplesmente acatavam e recolhiam-se – escondendo-se em sua toca.
            O trecho inicial do livro foca principalmente nas situações de bullying que Shelley sofre na escola, e na separação de seus pais, bem como a mudança de mão e filha para o chalé Madressilva, á 30 minutos da cidade. Sempre calada, Shelley aceita condescendentemente as agressões das garotas envolvidas restringindo-se somente a registrar os acontecimentos em seu diário.

“Penso que quanto maior o trauma, menos adequadas as palavras se tornam, até enfrentarmos o maior de todos os testes, quando apenas o silêncio parece apropriado”
P. 27

            Tal silêncio só é quebrado quando Shelley sofre um sério atentado na escola, que além de marcas psicológicas deixa-lhe cicatrizes no rosto. Neste momento pode-se pensar que as garotas envolvidas serão finalmente punidas, que a mãe de Shelley irá tomar uma atitude, assim como a direção da escola, porém nada disso acontece; quem acaba saindo da escola a poucos meses dos testes finais é Shelley, pelo simples fato de a direção não querer ter o nome da escola envolvido em um escândalo e pela mãe de Shelley não se impor contra toda aquela situação; A garota acaba acreditando na impunidade, e até prefere que as coisas sejam assim mesmo, prefere ter professores que lhe deem aula em casa para que não precise sair, para que não precise abandonar o aconchego da sua toca. E foi justamente essa reclusão da personagem principal, bem como a maneira como ela coloca as palavras que fez com que me identificasse:

(...) não importa o quanto somos próximos de alguém, sempre existirão limites – fronteiras que simplesmente não somos capazes de atravessar, questões que nos tocam tão profundamente que não podem ser compartilhadas. Talvez, pensei, aquilo que não conseguimos compartilhar com os outros seja o que realmente define o que somos.
P.33

            Como dito no início da resenha, eu tenho sim muita dificuldade em colocar em palavras exatamente aquilo que sinto o que de certa forma eu atribuo aos mesmos motivos que Shelley apresenta no livro; tanto o Bullying sofrido de modo calado na escola quanto os problemas familiares.  As emoções misturam-se e atingem um limite em que as palavras não conseguem alcança-la, e como a personagem narra em determinado momento, são tantas emoções reprimidas que uma vez abertas as comportas era impossível saber como coloca-las em palavras, e suas explosões acabam sendo incoerentes, e, aos olhos de outas pessoas, totalmente fora de contexto quando na verdade não o são! Era exatamente nesses momentos que eu sentia que não somente eu estava lendo o livro, mas ele também me lia, ele dizia coisas que eu queria dizer! Em certos trechos do livro é como se eu estivesse a observar um de meus autorretratos.
            Mas eis que chegamos à parte em que estória muda completamente de rumo; é a madrugada do aniversário de 16 anos de Shelley e por volta das três da manhã a garota acorda com o costumeiro barulho do quarto degrau da escadaria de sua casa, em seguida vê a luz do corredor ser acendida, ouve a porta do quarto da sua mãe ser aberta e ela gritando. O gato entrou na toca dos ratos. E é exatamente aqui que aos meus olhos a narração de Reece torna-se irresistível, com uma fluidez e espontaneidade que fazem com que você não consiga parar de ler até ser vencido pelo cansaço. Desta vez, as oprimidas é que se tornam as agressoras e acabam se enredando numa trama que parece não ter saída até que o autor nos apresenta um final que questiona os limites entre o certo e o errado, abrindo nossos olhos para a questão de que o conceito de ambos não está ligado somente aos princípios que cada um de nós mantém, mas principalmente à condição em que você se encontra, seja do lado mais forte ou do lado mais fraco.
            Com uma narradora que ora perturba, choca, causa empatia, a estória tem esse poder de nos envolver, e também de caracterizar essa “anestesia” pela qual muitas pessoas parecem estar passando;

Era como se eu houvesse passado por tanta coisa que fora drenada de emoções, e, no lugar delas, a resignação caíra como um manto de neve, deixando-me anestesiada, protegendo-me da dor que estava por vir. Imaginei se as pessoas prestes a serem executadas sentiam essa mesma calma (...).

p.228

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Nota Sobre a Ausência

         Depois do ocorrido sentou-se frente à TV de sua casa e por várias horas ficou a observá-la, porém sem nada ver. Era como se tivesse voltado a viver em outra a dimensão – aquela que nunca, em hipótese alguma, deveria ter saído.
            Eram quase duas da manhã quando se deu conta de que deveria acordar cedo para se dirigir ao trabalho na manhã seguinte. Desligou a TV e esticou-se para a mesa de centro, tomando seu computador nas mãos; acessou suas principais redes sociais e desativou-as, era preciso sumir por algum tempo, afinal era assim mesmo que se sentia; invisível.
            O computador aberto em seu colo era a única fonte de luz no local agora, e, assim que o fechou, as sombras deitaram sobre si, mas agora elas não pareciam mais pesadas a amedrontadoras como quando criança. Agora, as sombras, o escuro, a reclusão, pareciam estranhamente reconfortantes. De um modo ou de outro sempre acreditou mais no poder das trevas que na luz. Era na escuridão, nos momentos em que se encontravam totalmente sozinhos e sem conseguir enxergar um palmo a frente dos olhos que as pessoas passavam pelas maiores provações, e somente pessoas que passaram por tais situações poderiam compreendê-lo.
            Não há utilidade – tampouco sentido – em discutir com pessoas que sempre tiverem tudo na vida, pensou antes de se levantar e se dirigir ao banheiro.
            Sem esbarrar em canto algum ele encontrou a porta do banheiro, abriu o pequeno armário que guardava seus objetos de higiene pessoal, escovou os dentes, depois lavou o rosto. O pequeno facho de luminosidade que entrava pela janelinha a sua esquerda iluminava parte de seu rosto no meio de todo aquele breu como a cena de uma pintura barroca. Pôde vislumbrar o inchaço de seus olhos e o brilho enaltecido por uma lágrima que insistia em sair; levou o dedo ao olho e recolheu-a, observou aquela gotícula na ponta de seu dedo e levou-a a boca, queria sentir – literalmente – o gosto da sua dor.
            Finalmente decidiu-se deitar, fechou a porta do quarto as suas costas, despiu-se e se lançou para a cama. Seus olhos já estavam habituados à escuridão, de modo que podia vislumbrar a silhueta dos móveis, e, por um segundo, foi como se pudesse ver os movimentos dele dentro de seu quarto, fechou os olhos e deitou-se para o canto da cama a fim de deixar um espaço ao seu lado para que ele pudesse se aninhar ali. E naquele breve instante foi como se realmente pudesse Senti-lo do seu lado; o toque, o cheiro, a textura de sua pele. Porém tal sensação foi apenas momentânea, logo se lembrou de que era ele quem havia deixado aquele arrombo em seu peito.
            O amor ainda existia, podia senti-lo latente em seu corpo, porém não havia mais volta. Por mais que houvesse arrependimentos de ambas as partes, ele não se permitiria entregar seu coração e ficar a mercê das decisões de alguém novamente.

Se tinha de permanecer sozinho, faria da solidão sua armadura. 

"O que Está Fora se Expande"  - Ale Schappo

sábado, 11 de outubro de 2014

Inocência Perdida

            Percebe que dentro de mim algo mudou?
            É esta lacuna, esse espaço em branco que divide o tempo e o espaço entre você e eu. Foi como um corte lento e profundo, visceral e devastador. Metodicamente fez-se a incisão, lâmina afiada perfurando as camadas mais profundas da pele, perpassando minhas costelas até encontrar o músculo-mor.
          Meu amor, anestésico mortal, impediu que eu percebesse o que realmente aconteceria antes que o estrago se fizesse efetivo. Essa poesia de cego, você não viu.
            Incisão feita, seus dedos avançam como cobras para dentro de meu peito, tomando-o para si.
Sente?
Agora pulsa em suas mãos.
Diante meus olhos, diante daquele que outrora fora seu dono.
Em seu rosto não há nenhum sorriso sádico tampouco nenhuma expressão culpada. Fizeste tudo como se cumprisse um ritual, um costume, um hábito. Talvez realmente fosse isso, essa vontade voraz de ter nas mãos essa granada – esse último suspiro. É a perca de um traço da sua essência, ou talvez uma nova moldagem da mesma.
Olho para o meu peito, para o espaço vazio donde o líquido escarlate brota e escorre por meu corpo, e tenho total consciência de que tal estrago não pode ser revertido, que a marca permanecerá ali até o fim do registro do meu tempo. Vejo-o virar as costas antes que eu possa dizer palavra – já não há o que ser dito. Antes que suma da periferia da minha visão uma certeza, cega e mordaz, se faz latente dentro de mim; irei toma-lo de volta, resgatar o que é meu nessa batalha de deuses e monstros.
O que eu verdadeiramente quero é a inocência perdida.

"Untouchable", Kyle Thompson

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sobre Partidas






   Julguei ser impossível amar tanto alguém sem obter o mínimo de reciprocidade.
   Como sempre que julgamos, estava errado.
   Minha visão errônea de um mundo inexistente desfazia-se.
  Era como o fim de um ciclo. Um doloroso processo de perca da inocência, daquele pensamento de discurso amoroso tão belo que sempre me foi cultivado.
  Pus meu sentimento para dormir, alojei-o em algum canto escondido do meu ser, e não foi por escolha. Foi necessidade. Precisava parar de gastar tantas energias, de me doer. Porém ele continua lá, e eu lhe aviso que tem sono leve, portanto não tente acordá-lo, pois ambos sabemos que ele nunca virá a ser realmente no viver, apenas no papel.
  Prometo nunca mais tocar no assunto se me prometeres nunca retornar, não deixar mais seu cheiro impregnado na minha pele, nem sorria com o canto da boca. Só quero que o deixe dormir. Como todo animal selvagem, meu coração não deve ser perturbado, deve ficar lá, isolado de todo e qualquer perigo, de todo estranho que se atreva a entrar. E se caso acontecer novamente quem sofrerá as consequências não será ninguém além de mim mesmo. Meu próprio sentimento seria capaz de me matar.
   Não teria mais forças para reconstituir-me novamente.
Eu lhe amo, e sinto que amarei até o fim dos meus dias, porém não posso repetir isso muito auto, ele corre o risco de acordar.
  Parafraseie um desses mocinhos de um romance qualquer e sussurre em meu ouvido que nunca retornará. E então parta, sabendo que sempre te carregarei comigo, como o primeiro que realmente am... se é que isso importa.



sábado, 16 de março de 2013

Angústia


   

   O gesto de te abraçar parece realizar por um momento o sonho da união total contigo. É um instante de sono, sem dormir, é quando tudo fica suspenso: o tempo, a lei, a proibição: nada cansa, pois todos os desejos parecem transbordar-se, saciar-se.
   Tal transbordamento existe, e vou querê-lo sempre, vi-me viciado. Teimarei em querer reencontrar, renovar, saciar o desejo de uma nova união – da contradição – da contração de um novo abraço.
   Ao longo de minha vida posso encontrar milhares de corpos, desejar metade deles, relacionar-me com dezenas, porém amo apenas um. Designo a você toda a especialidade do meu desejo. É uma “escolha” rigorosa que só retém o Único. E foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez até muitas procuras) para que eu encontrasse a Imagem, que entre mil, convém ao meu desejo. Foi necessária muita sorte (azar?) para que eu encontrasse você.
  E agora, depois de algum tempo eu paro e pergunto a mim mesmo o que tanto você questionou; O que é que fez eu me apaixonar justamente por ti? É um enigma do qual eu nunca obterei soluções: Porque te desejo? Porque te desejo por tanto tempo? Seria você como um todo, o corpo, silhueta, personalidade, ou a fonte de tal de desejo reside nos pequenos detalhes; numa unha bem feita, no cabelo bagunçado ou na pele incrivelmente macia?
   De todos esses relevos do seu corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: Esse é meu desejo, tanto que único, tanto que eu nunca consiga realizá-lo.
   Os psicóticos passam a vida toda sob o temor do aniquilamento, e, por mais curioso que seja, parece ser o mesmo que a angústia de amor, um temor de um luto que já ocorreu, desde a origem do amor, desde o momento que fiquei encantado, muito antes de dizer que lhe amo. Seria preciso que alguém me dissesse “Não fique tão angustiado, você já o perdeu” Ou melhor, ainda: “Não fique tão angustiado, ele nunca foi seu”. Você sempre será meu ponto fraco.
   Apesar de tudo isso, eu te amo, sem porque, sem pra quê. Eu te amo com cada ínfima parte do meu corpo, o desejo com intensidade e sofro com a angústia do fracasso, com o aperto esmagador no peito. Resta-me dizer que eu sempre estarei aqui, á espera caso decida vir, e mesmo que pense nunca mais me transbordar com um de seus abraços, não importa, continuarei a lhe esperar mesmo assim, até o fim dos meus dias.


O amor é objetivo último de quase toda preocupação humana; é por isso que ele influencia nos assuntos mais relevantes, interrompe as tarefas mais sérias e por vezes desorienta as cabeças mais geniais.
Schopenhauer




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Iminência Das Poéticas



    



O título desse texto foi também o tema da trigésima bienal internacional de arte; A Iminência das Poéticas, dos dizeres subjetivos injetados nas obras por cada um dos artistas. Do poder reflexivo que elas nos proporcionam, trazendo á tona questões que não havíamos parado para pensar antes, e, que, muitas vezes estavam diante de nossos olhos, porém a vida cotidiana não nos permitia perceber.
   O grande desafio enfrentado tem sido justamente o de agregar essa dimensão poética da arte em seu poder de oferecer outra voz e outro olhar á ação educativa, que valoriza outros modos mais convencionais e didáticos de significar as vivências artísticas.
   Devemos, antes de tudo, deixar de encarar a arte como algo unicamente racional, conceito que foi criado o Renascimento e veio sendo cultivado em outros estilos, onde sua produção era extremamente técnica. Devemos tirar o verniz cultural que a reduz ás “Belas Artes”.
   Podemos implementar na educação da arte outra lógica – a poética – que não nos fornece explicações sobre o mundo, mas experiências do e no mundo. É ato, não apenas discurso sobre, não se tratando apenas de consumir conhecimento, mas favorecer aprendizagens que tenham como base a experiência, a vivência do mundo. É nesse processo de decifrar o mundo que se dá a experiência poética. Um ato que se elabora para além das palavras, que não precisam ser verbalizados, basta apenas o corpo agir.
   Para o poeta Valéry (1999, p.191), “na produção da obra, a ação vem sob a influência do indefinível” e não pelo definível pela clareza conceitual dos logos. As coisas, a todo o momento, nos interrogam e exigem de nós ações no mundo. Exige que inscrevamos um sentido naquilo que não tinha, indo além do palpável, do óbvio, do objetivo.
    Já dizia Aristóteles – Acredito que a arte esteja fortemente embasada na filosofia, por esse motivo cito Aristóteles aqui – em Arte Poética, que o que está sendo dito, sem deixar de ser claro, não deve ser “rasteiro”, devendo antes ser “nobre” e, de preferência, afastado do uso vulgar.
    A transformação da arte em matéria – no produto final – implica em todo um processo de criação, onde materializamos, deixamos a marca de tudo o que sentimos, de toda a concepção que criamos sobre o mundo e as coisas que o cercam, através de nossas experiências.
    É uma captura-escuta de mim, que eu não sabia poder realizar, que faz com que eu aprenda a transformar meu pensamento, emprestando uma existência poética ás coisas que me cercam.
   Explorar e investigar uma série de matérias-primas, faz parte da experiência tanto de artistas quanto de professores de arte, e isso requer um extenso conhecimento e uma imensa variedade de possibilidades técnicas. Entretanto, de nada serve a técnica se dentro dela não estiver uma alternativa que possa adequar-se á poética daquele que a projetou.
   Nossa única saída – não somente na escolha de materiais, mas também nos critérios avaliados para se fazer alguma criação – é nos arriscarmos. Aguardamos sempre pelo imprevisto, pelo impensado, por aquilo que nos fará perceber que a busca valeu a pena. Todo esse tempo que passamos em busca de respostas é necessário, é um tempo de aprendizagem, de coleta de experiências e vivências, e por mais que consigamos responder á determinada questão, não teremos muito tempo para descansar, pois logo surgirá uma nova pergunta, e só suportamos essa ausência de respostas, por acreditarmos que na pergunta que reside o impulso de toda a atitude criadora.
    Questionar nossos modos de pensar e agir em educação pode nos desestabilizar, mas também pode promover o confronto necessário para sairmos do lugar em busca de outros modos de pensar os processos de aprendizagem na especificidade das linguagens plásticas. Desse modo a “desacomodação” nos permite perceber as fronteiras entre o exterior o interior, mente e corpo, ser e mundo de modo permeável e distinto do habitual.



Trabalho teórico realizado na disciplina de Pintura I.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Tudo Aquilo Que Nunca Foi Dito

 
 

  

   Há algum tempo gostaria de falar sobre as palavras que insistem em travar na minha garganta, e, que cedo ou tarde podem me sufocar. Gostaria de me livrar desse terrível mal: O de não conseguir verbalizar o que se sinto.
   Talvez por incompetência, falta de experiência, ou porque não chegou o momento certo de lhe dizer tudo. Os motivos eu desconheço. Prometi a mim mesmo que seria corajoso e levaria essa história até o final. Prometi que nada abalaria o amor que sinto por ti, e que jamais permitiria que as pessoas tentassem desestruturar as coisas nas quais acredito.
   Eu prometi tantas coisas...
   Dos escritos arquivados, do sentimento gravado á tinta no papel, de tudo aquilo que lhe escrevi, mas não tive coragem de entregar. Cada palavra lutando dentro de mim, abrindo caminho garganta afora como se tivessem garras e vacilando na ponta da língua, cada grito ensaiado frente ao espelho... Cada tentativa falha de provar que lhe amo. Tudo aquilo que nunca foi dito acumula-se em meu peito e me infecta como uma doença terminal.
   Eu morro todos os dias á sua espera, ansiando por um único beijo, um encontro, ou uma simples troca de olhar, e, se possível, ouvir de sua boca apenas duas palavras; “Eu também”. Eu morro todos os dias ao perceber que nada disso jamais acontecerá, e, principalmente, por constatar que a maioria das minhas promessas foram quebradas.
   Já não sei mais em que acredito, se é que acredito em algo. Permiti que colocassem em dúvida minhas crenças, fui incapaz de provar o meu amor e pior de tudo, deixei que ele se transformasse em algo ruim, pois meu sentimento não me dá o direito de posse sobre ti. E agora, bom, já é tarde pra qualquer mudança de ideia.
   Só tenho de me desculpar.
   Por não saber o que dizer e por eventuais incômodos.
   Eu sinto muito,