sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Nota Sobre a Ausência

         Depois do ocorrido sentou-se frente à TV de sua casa e por várias horas ficou a observá-la, porém sem nada ver. Era como se tivesse voltado a viver em outra a dimensão – aquela que nunca, em hipótese alguma, deveria ter saído.
            Eram quase duas da manhã quando se deu conta de que deveria acordar cedo para se dirigir ao trabalho na manhã seguinte. Desligou a TV e esticou-se para a mesa de centro, tomando seu computador nas mãos; acessou suas principais redes sociais e desativou-as, era preciso sumir por algum tempo, afinal era assim mesmo que se sentia; invisível.
            O computador aberto em seu colo era a única fonte de luz no local agora, e, assim que o fechou, as sombras deitaram sobre si, mas agora elas não pareciam mais pesadas a amedrontadoras como quando criança. Agora, as sombras, o escuro, a reclusão, pareciam estranhamente reconfortantes. De um modo ou de outro sempre acreditou mais no poder das trevas que na luz. Era na escuridão, nos momentos em que se encontravam totalmente sozinhos e sem conseguir enxergar um palmo a frente dos olhos que as pessoas passavam pelas maiores provações, e somente pessoas que passaram por tais situações poderiam compreendê-lo.
            Não há utilidade – tampouco sentido – em discutir com pessoas que sempre tiverem tudo na vida, pensou antes de se levantar e se dirigir ao banheiro.
            Sem esbarrar em canto algum ele encontrou a porta do banheiro, abriu o pequeno armário que guardava seus objetos de higiene pessoal, escovou os dentes, depois lavou o rosto. O pequeno facho de luminosidade que entrava pela janelinha a sua esquerda iluminava parte de seu rosto no meio de todo aquele breu como a cena de uma pintura barroca. Pôde vislumbrar o inchaço de seus olhos e o brilho enaltecido por uma lágrima que insistia em sair; levou o dedo ao olho e recolheu-a, observou aquela gotícula na ponta de seu dedo e levou-a a boca, queria sentir – literalmente – o gosto da sua dor.
            Finalmente decidiu-se deitar, fechou a porta do quarto as suas costas, despiu-se e se lançou para a cama. Seus olhos já estavam habituados à escuridão, de modo que podia vislumbrar a silhueta dos móveis, e, por um segundo, foi como se pudesse ver os movimentos dele dentro de seu quarto, fechou os olhos e deitou-se para o canto da cama a fim de deixar um espaço ao seu lado para que ele pudesse se aninhar ali. E naquele breve instante foi como se realmente pudesse Senti-lo do seu lado; o toque, o cheiro, a textura de sua pele. Porém tal sensação foi apenas momentânea, logo se lembrou de que era ele quem havia deixado aquele arrombo em seu peito.
            O amor ainda existia, podia senti-lo latente em seu corpo, porém não havia mais volta. Por mais que houvesse arrependimentos de ambas as partes, ele não se permitiria entregar seu coração e ficar a mercê das decisões de alguém novamente.

Se tinha de permanecer sozinho, faria da solidão sua armadura. 

"O que Está Fora se Expande"  - Ale Schappo

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