sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Desapego


 
 


    Naquele dia acordou cedo. Não era de seu costume, porém estava inquieto demais para continuar na cama. De hora em hora pesadelos horríveis o acometiam. E, por mais que rezasse ajoelhado ao lado da cama, nenhum Deus descia da cruz para ajudá-lo, nenhum sinal de que tudo terminaria bem lhe era dado.

   Acordara para aquele que poderia ser seu último dia. Dali a algumas horas passaria por uma delicada cirurgia, e, o médico já havia lhe avisado das chances de não sair mais da sala cirúrgica. Aquilo lhe acometera como um soco no peito. Sentado na cama, ele repensou em toda a sua vida e se perguntou onde é que havia errado, o que fizera pra chegar até ali.

   Agora a revolta já havia passado. Aquelas questões de porque o resto do mundo parecia tão perfeito e feliz, enquanto ele se torturava com seus medos inseguranças, já não o acometiam com tanta frequência quanto antes. Parecia ter se conformado, até. Se conformado em ser um alien, diferente de todos, um aspirante a intelectual que tinha mais inseguranças que uma criança de doze anos de idade.

   Repensou tudo que havia feito e chegou a conclusão de que talvez o problema estivesse enraizado naquilo que não havia feito. Deixara tanta coisa em sua vida passar. Privou-se de tantos prazeres, limitou-se, não se permitiu.

   Levantou-se e afastou as cortinas para que pudesse abrir a janela, deixando que a brisa do amanhecer lhe acariciasse o corpo. Teve vontade de se desfazer em fragmentos, deixar-se ir com o vento para algum lugar, para lugar algum. As frustrações de uma vida mal vivida, de amores não correspondidos, não permitiam que ele continuasse a viver. Aquela doença talvez viesse somente para fazer aquilo que ele não tinha coragem de fazer com as suas próprias mãos; acabar com tudo de vez.

   Era reconfortante, sim, tudo acabado, sem mais sofrimentos, sem lágrimas, sem aquela sensação esmagadora no peito, sem palavras formando nós na garganta. Sem nada. Só a morte e tudo que pudesse vir acompanhado dela.

   Não contou para ninguém os reais motivos da afastação do trabalho e dos amigos, não queria que ninguém se preocupasse, nem perdesse seu tempo pensando nele. Aquele era o momento do ponto final.

   Olhou para seus livros na estante e se perguntou por que cargas d’água havia amontoado todas aquelas histórias ali ao longo de sua vida. Agora lhe parecia algo tão sem sentido, pra onde iria não poderia levar nada consigo. Foi tomado por uma sensação de desapego, uma deliciosa sensação de que nada é seu, de deixar ir, de não querer se apossar de modo doentio das coisas.

   Naquele dia ele se desapegou de tudo, inclusive da vida.

  E antes de partir, quando ainda estava lúcido, se perguntou por que não se desapegara de tudo antes. As coisas poderiam ter sido tão mais fáceis.

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